segunda-feira, 30 de março de 2009

Pequenas Memórias - IX



Os primeiros correios de Vila das Aves

sexta-feira, 27 de março de 2009

Jé é primavera -
Uma colina sem nome
sob a névoa da madrugada

Bashô

quarta-feira, 25 de março de 2009

Pequenas Memórias - VIII


Das Fábricas

O relógio parou mas dentro
dos muros da velha fábrica
abandonada uma figueira renasce
e de novo fico à espera dos doces figos
de outrora sentado num banco de pedra
até à hora do canudo
descanso de um antigo operário.

Os inúmeros caminhos que aqui
chegaram de todos os lugares;
caminhos hoje lamacentos
amanhã ressequidos de sol;
telhados fendidos janelas quebradas
muros a esboroarem-se em musgos
pedras casa de gatos vadios e lagartas:
quase nada.

Os homens chegavam de terras longínquas
Roriz, Lamoso, Paços de Ferreira...
Chegavam aqui iluminados pelos ímans
das bicicletas fechados um dia no
matraquear violento dos teares;
no intervalo comiam o caldo
as meias sardinhas as laranjas
de umbigo fora de horas e cansados
iam de novo pela noite dentro
atravessar montes e povoados
até ao fim do mundo
até ao fim da vida ...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Xenofonte, amante do vinho, consagrou-te um tonel vazio, ó Baco.
Aceita-o de bom grado: ele nada mais possui.

Erastótones, o Escolástico

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pequenas Memórias - VII


Não será a locomotiva Negrellos que no dia 31 de Dezembro de 1883 inaugurou o troço entre Trofa e Vizela, da linha do caminho de ferro de Guimarães, mas a próxima estação onde irá parar chama-se Vila das Aves.

terça-feira, 17 de março de 2009

Pequenas Memórias - VI


Porque estas são também as minhas memórias.


"Na aldeia onde tudo é simples, onde tudo é paz e onde tudo tem um nome!...
As casas são: a Casa da Barca, a do Verdial, a da Renda, a do Outeiro – onde o imortal escritor Arnaldo Gama escreveu algumas das mais belas páginas das suas obras – a da Tojela e quantas mais!...
São o tio Zé Pisco, o tio Chico Fumega, o se Manuel Pândego com a sua típica carroça puxada pelo burro moreno; o se Manuel Chibo, o se António, o se Avelino Marujo, o se Joaquim Meio Quartilho, o se Coutinho das Leiras – um engraçado velhote já quase centenário – a senhora Ana Dioga, a se Rosa Sampedro e a se Emília Bica, esquelética e meã, fumando cigarros como qualquer homem!
Os campos são: o do tanque, o pias, o inças, o do rio e os lameiros, o do fundo, o das levas, e tantos, tantos ... a bouça de Poldrães, onde em catraio andava às maças de cuco e aos pinhões debaixo dos grossos pinheiros mansos, e onde apanhava molhes de fetos e de caruma e colhia amoras nos silvados e tirava, com uma palhinha muito fina, grilos das toquinhas que aqui e além se escondiam no chão ...
São a vinha do regalo, a ramada da cerca; as fontes, a Areda, a de Sence e a de Poldrães; o ribeiro de Ringe, onde em pequeno, dos cinco aos dez anos, caçava “cabeçudos” e brincava com barquinhos de papel; os bois, mansos como um olhar de Jesus, são o carocho, o cabano, o malhado e o chasco; os gatos, o chumbinho, o rabano e os cães, o faísca, o nero e o fajardo: o galo liró e as galinhas a pinta, a franjada, a rabeca e quantas mais!...
As capelinhas, brancas como véus de noiva, são: a do Espírito Santo, a de S. Roque, a de S. André de Sobrado e a da Senhora da Seca. Senhora que tem feito muitos milagres e por quem o povo das Aves tem o maior carinho e devoção.
Nos verões de prolongada seca, quando as pedras rechinam e a terra começa a ficar em torresmos e as árvores e os frutos estiolam à míngua de água e no céu se não vislumbra uma nuvem que possa deitar umas simples gotas de chuva, o povo crente da terra lá vai buscar a Senhora da Seca à sua capelinha e trá-la em procissão para a Igreja paroquial ao som de cânticos e de fervorosas preces.
A Senhora só torna para o seu lugar na capela depois de caírem as primeiras chuvadas.
No entanto já tem acontecido começar a chover copiosamente antes da procissão recolher à Igreja e o povo na sua ingénua e sentida linguagem agradece à Senhora o milagre concedido.
Caminhos que percorri inúmeras vezes de lés a lés, com uma roda de verguinha de ferro, feita na oficina do ferreiro Sr. Joaquim Barros.
Era o luxo das rodas e a causa da inveja dos rapazes da vizinhança! Com ela fazia um vistão! Era um autêntico gamo a correr... Era o Barbosa dessa época! Largos e devesas onde saltava à corda, ao truque e jogava pião, a bola e o botão. Onde se tocava viola, cantava e dançava o Malhão, o Vira, o Corridinho, a Cana Verde e tantas outras danças em que a Guida “Lampaneira” era a principal figura. Ainda da me recordo de muitas cantigas do afamado e popular cantador Zé Maneta – alcunha que lhe puseram por lhe faltar uma mão – cantar ao desafio ou a sós para os pares que rodopiavam nas tardes domingueiras. Era um prazer ouvi-lo tanto pela bela voz que tinha, como pelo humor e acerto das cantigas. Eis algumas:

Minha mãe, minha mãezinha,
Eu venho toda assustada!
Vi o nosso padre cura
Aos abraços à criada!


Ao ouvir falar baixinho,
Desconfiai raparigas!
Tende muito juizinho,
Pois o resto são cantigas ...

Cachopa, se o teu rapaz
Te pedir beijos, diz sim.
Os beijos ficam na pele,
Mas guarda o melhor pra mim."

.../...


Ferreira Neto
Conto Desilusão in O Sorriso da Máscara – s/d

segunda-feira, 16 de março de 2009

Noite na cabana -
Um grilo na prateleira
Procura por algo

Issa

sexta-feira, 13 de março de 2009

Pequenas Memórias - V


O Cinema

Se há algo que eu deveria lembrar-me com perfeita nitidez, pelo choque e deslumbramento que me causou, seria o cinema – o primeiro filme que vi no Cine-Aves? Não me lembro de facto. Nem do primeiro, nem do segundo. Não me recordo títulos, actores lembro de alguns. Penso que foram filmes de “cowboys”. Naquela altura todos os rapazes apreciavam um bom “western” e ao domingo à tarde por finais dos anos 60, princípios de 70 o Cine-Aves passava inúmeros filmes deste género. Os filmes do Trinitá por exemplo: “Trinitá o cowboy Insolente”, “Continuaram a chamar-lhe Trinitá”, “Trinitá é o meu nome” com os actores Terence Hill e o gordo Bud Spencer. Mistos de comédia e acção que nos deliciavam e nos levavam às lágrimas de tanto rir.
Como disse de poucos títulos de filmes me recordo mas lembro as enormes filas que se faziam nas bilheteiras para conseguir um bilhete, correndo sempre o risco de a sessão estar esgotada muito antes da hora. As entradas controladas minuciosamente pelo Sr. Soares. Se o filme não fosse de uma idade adequada para nós, podíamos esperar que não entravamos ou então um senhor mais velho, benevolente, levava-nos, dizendo que era o nosso pai ou tio e que se responsabilizava por nós. Havia filmes para maiores de 6 anos, maiores de 12, maiores de 16 e 18 anos e mesmo para maiores de 21 anos. Na maior parte das vezes seria um beijo mais ousado na tela que fazia a diferença de escalão e que nos impedia de entrar. Como então sonhávamos ter depressa 18 anos!
Recordo também a escada em caracol para o Geral, que era para onde a rapaziada ía, por ser o mais barato. Uma infindável subida que desemboca numa escuridão tremenda, suspensa sobre o balcão e a plateia. No átrio exterior do cinema vendiam-se e trocavam-se livros de aventura, policiais e de cowboy e outros .Os vendedores expunham essas preciosidades no chão, alguns por necessidade de ganhar alguns escudos, outros por simples troca. Penso que foram os primeiros livros que comprei, troquei e li com paixão. Da colecção O Mundo de Aventuras lembro os livros de Tarzan, de Mandrake, do Flash Gorgon, do Condor... Um pouco mais tarde passei para as Aventuras dos Cinco de Enid Blyton. Mas falarei depois das minhas primeiras leituras “a sério”. Juntava alguns tostões e ao fim de semana na porta do Cine-Aves comprava ou trocava todo um mundo aventuras que me alimentava a imaginação por alguns dias. Tive amigos que tinham malas e malas deste género de livros, com quem passava tardes em religiosa convivência.

terça-feira, 10 de março de 2009

Pequenas Memórias - IV















Uma casa na árvore


Todos os anos pelo princípio da Primavera ansiava que o meu carvalho predilecto ganhasse rapidamente as folhagens ramalhudas e extensas que me permitisse usá-lo como a minha casa de leitura. Aliás, penso que esse carvalho foi a minha primeira biblioteca. Era o único espaço que possuía só meu para poder ler e sonhar. O carvalho ficava frente minha casa, num campo onde habitualmente pastavam vacas. Penso que todos os anos, a partir dos oito ou nove, começava a habitá-lo pela altura das férias da Páscoa. A casa ficava desocupada momentaneamente quando começavam as aulas e era de novo habitada nas longas, longas férias de Verão. Todos os miúdos do campo sabem que é relativamente fácil subir a um carvalho. A sinuosidade da árvore com os nós próprios e as saliências faziam com que fosse quase como uma escada. No cimo do carvalho, a três, quatro metros do chão, dispunham-se umas tábuas suficientemente largas e compridas, unindo os ramos mais fortes e firmes de forma a construir um estrado que me permitisse estar sentado, deitado ou de pé. O espaço de mobilidade não era muito, mas o suficiente para pensar que aquele era o meu esconderijo secreto, a que mais ninguém tinha acesso. No Verão, a espessa folhagem da árvore ocultava-me de qualquer intruso que passasse pelo campo ou pela rua próxima. Estendia uma manta velha sobre o estrado e a casa tinha então todas as condições de habitabilidade para umas férias.
Depois levava os meus livros, livros que ía buscar à D. Celinha, responsável pela Biblioteca Fixa da Fundação Gulbenkian a funcionar na Junta de Freguesia. Levava os livros e o lanche, porque a estadia na árvore prolongava-se habitualmente por uma tarde inteira.
Esses primeiros livros que li com prazer e alguma devoção chamavam-se “Os Cinco...”, “Os Sete...”, “Os Mistérios...” da Enid Blyton . Os romances do Emílio Salgari. O Mark Twain, O “Robinson Crusoé”, A “Ilha do Tesouro”, etc. Que fabulosas viagens fazia então no cimo daquele carvalho. Se a aventura fosse no mar, seguia à proa do navio, se fosse num rio ouvia o rumorejar das águas que o vento deixava nas folhas verdes, se fosse numa ilha, estava numa ilha, no meio de uma floresta espessa onde nada, nem ninguém me poderia descobrir ... Se hoje tivesse todos os títulos que li no cimo desse carvalho, sei que teria uma imensa biblioteca. Sei também que nunca viajei tanto em toda a minha vida . Até a este momento, nunca revelei esse local mágico a ninguém .Era uma espécie de T1 que não admitia convidados ou hóspedes. Uma secreta casa de leitura e sonho que já não existe. Esse extenso campo de carvalhos deu lugar habitações de tijolo e cimento sem imaginação.

sexta-feira, 6 de março de 2009

As cigarras vão morrer
mas no seu canto
nada o anuncia

Matsuo Bashô

quinta-feira, 5 de março de 2009

Pequenas Memórias - III


Os Esconderijos


Voltarei à Bouça das Minas mais tarde, quando a sede for muita. Mas por agora e por ter falado em “esconderijos”, quero recordar que todos os rapazes os tinham. Geralmente cada grupo tinha o seu. Os grupos também eram variáveis em número: poderiam ser dois, três, uma dúzia ... Os mais numerosos eram sempre invejados pelos outros, ou pela maior audácia dos participantes, por aventuras mais ousadas, pelo “esconderijo” que possuíam ser desconhecido e como tal inviolável, ou mesmo pelo “chefe” do grupo, ser mais velho e como tal ser mais respeitado na hierarquia dos grupos. Eu pertenci a alguns. Porque, dependendo das amizades circunstanciais, também podíamos mudar de companhia e inevitavelmente de grupo. Estes constituíam-se sobretudo nos três meses das ferias de verão. Três longos meses de aventuras fora de casa!
Um dos grupos a que pertenci em determinada altura tinha um estatuto já considerável. O “esconderijo” secreto era junto ao rio Ave, depois do Rio Berto. Consistia esse “esconderijo” numa caverna natural formada por penedos, mesmo junto ao rio, sendo de muito difícil acesso. Os grupos reuniam, definiam estratégias, algumas até de combate com outros grupos. Pacto secreto era sem dúvida o local do “esconderijo”, e quem o violasse poderia considerar-se excluído de todas s aventuras e até mesmo da amizade dos restantes elementos do grupo . A caverna junto ao rio era ( ainda é, porque ainda existe – visitei-a muitas vezes mais tarde) um local mágico. Levávamos para lá merenda, ferramentas, livros... Era uma tarde inteira dedicada ao belo ofício da aventura.

Embora fosse terminantemente proibido pelos nossos pais, também tomávamos banho no rio. A água fresca e limpa corria ali aos nossos pés, e embora o Ave fosse de uma corrente forte e tumultuoso durante todo o ano, no verão era suave e em alguns locais tínhamos pé para nadar, mesmo sem alguns saberem nadar. A maior parte ainda não conhecia o mar. Alguns rapazes perderam a vida nessas tardes de Verão: nunca que eu me recorde, na “ilha”. Morreram alguns no Amieiro Galego, em Caniços, no Padre Joaquim da Barca. Na “ilha”, não. No Verão o rio formava uma enseada, uma pequena praia que nós cuidávamos e uma ilha de fácil acesso no meio do rio. Num dia em que muitos tomávamos banho, nus, porque não tínhamos calções de banho e jamais podíamos deixar adivinhar aos nossos pais que íamos para o rio, aconteceu uma história engraçada. Um dos rapazes banhava-se tranquilamente no meio do rio, já num fim de tarde, quando os outros, por pura diversão e gozo, esconderam a roupa ao infeliz, e foram-se embora. Quando chegou a hora do rapaz se vestir, não encontrou a roupa. Que aflição! Que desespero! Mas lá teve que enfrentar o destino e vir-se embora nu. Não morava longe. No entanto ao atravessar uns campos de milho, umas mulheres que vinham das regas, depararam com o rapaz em pelote. Gritos de incredibilidade e de espanto. Claro que ao chegar a casa o pobre do moço levou uma sova. É para que servem os amigos!

E os cheiros da terra, dos campos, das eiras? O cheiro do milho em Agosto; das uvas em Setembro...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Manhã

Ilumino-me
de imenso

Giuseppe Ungaretti

segunda-feira, 2 de março de 2009

Pequenas Memórias - II


A Bouça das Minas


Um dos lugares misteriosos que mais tempo me ocupou na infância foi a Bouça das Minas, onde hoje está situado a escola EB23 de Vila das Aves e o Lar da Tranquilidade. A bouça era um local de brincadeira por excelência, cheia de carvalhos, sobreiros, pássaros e coelhos. Um caminho de terra batida atravessava-a, para quem se dirigia de Romão para a igreja, com um portelo de cão a meio onde diziam apareciam bruxas e almas penadas. Acampei nesta bouça, por diversas vezes, com os lobitos (com a saudosa D. Inês) e os escuteiros (com o chefe Américo Luís, seu filho). Bouça das Minas, porque havia uma mina. A água fria corria num regato pelo interior da terra, por onde poderíamos avançar de pé no meio de uma escuridão medonha. Poderíamos... mas quase nunca o fazíamos, excepto quando no grupo, havia alguém destemido o suficiente para avançar pela terra dentro, sem nunca ver onde púnhamos os pés, onde pudesse surgir uma cobra monstruosa, um morcego cavernoso, um animal inverosímil E as aranhas?!
A mina era de uma extensão apreciável, mas que eu me recorde, nunca avancei até ao fim. De um lado corria em direcção ao estádio do Aves, que nessa altura ainda não era estádio, mas bouça. Do outro avançava até Freixieiro(?), ou mais até ao rio? Num dia de Verão a frescura da mina era bálsamo para os rapazes suados das correrias, da perseguição aos pássaros, da fuga da escola. Também se contava que existiria um tesouro escondido algures dentro da mina guardado por uma máscara de ferro: de moedas de oiro, do tempo dos mouros. Quem sabe algum de nós o encontrou?!